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Project Gutenberg

Flores do Campo

Deus, João de

2008ptGutenberg #27599Original source

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Notas de Transcrição

Foram corrigidos pequenos erros de impressão, sem que seja feita qualquer
nota dessa correcção, visto que em nenhum dos casos a correcção altera
o significado do texto.

Para facilitar a identificação de cada poesia nesta edição electónica,
foi adicionado o seguinte marcador como divisão entre elas:

      *      *      *      *      *




FLORES DO CAMPO


A propriedade d'este livro pertence, no Brazil, ao snr. Joaquim Augusto
da Fonseca.




João de Deus


FLORES DO CAMPO


2.ª EDIÇÃO CORRECTA



PORTO

LIVRARIA UNIVERSAL
de
Magalhães & Moniz, Editores

12--Largo dos Loyos--14

1876


PORTO: 1876--TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA
62, Cancella Velha, 62




A POESIA


EMBLEMA

Camões e Byron--Scepticismo e Crença

    Vem d'alto gozar, lirio!
    Noite estrellada e tepida;
    A vista ao céo intrepida
    Lança, penetra o Empyreo.

    Dilata os seios tumidos;
    Larga este terreo albergue;
    Nas azas d'alma te ergue;
    Ergue os teus olhos humidos

    Que vês?--Soes, de tal sorte
    Que os crêra tochas pallidas,
    Quando as guedelhas, madidas
    De sangue, arrasta a morte.

    --Transpõe-n'os; que, elevando-te,
    Por cada um d'aquelles,
    Milhões e milhões d'elles
    Verás alumiando-te.

    Ávante pois, acima
    Dos soes d'uma luz tremula;
    Alma dos anjos emula!
    Deus o teu vôo anima.

    Que vês?--Um vacuo eterno.
    --E n'elle?--Em ermo tumulo,
    Em ignea letra (cumulo
    D'horror) _Byron_--o inferno.

    --Foge.--O horror fascina-me.
    São reprobos que exhalam
    Horridos ais que abalam
    O inferno: oh Deus! anima-me.

    --Escuta-os.--Escutemol-os.
    Como elles bramem, rugem,
    E o espaço uivando estrugem...
    Gelam-se os membros tremulos.

    --Entra.--Não posso.--Arromba.
    --Prohibem-m'o.--Subleva-te.
    --Prohibe-o Deus.--Eleva-te.
    Acima, ingenua pomba!

    Que vês? A luz clareia-me.
    Que céo, que azul ethereo!
    Oh extasi, oh mysterio!
    Sobeja a vida, anceia-me.

    --Falla.--Deus! que harmonia!
    Aqui a alma exalta-se;
    A alma aqui dilata-se...
    _Camões!_--É a poesia.

Coimbra.

      *      *      *      *      *




  A UMA CARTA ANONYMA


    Não sabe a flôr quem manda a luz do dia,
    Nem quem lhe esparge o nectar que a deleita
             Ao vir raiando a aurora,
    E ella agradece as lagrimas que aceita,
    E ella as converte em balsamos que envia
             Ao mysterio, que adora.

                                     LAMARTINE.

Coimbra.

      *      *      *      *      *




DUAS ROSAS


    Que bonita, meu amor!
    Que perfeita, que formosa!
    A ti pozeram-te Rosa,
    Não te fizeram favor.
    A rosa, quem ha que a veja
    Bandeando, sem gostar?
    Mas por mais linda que seja
    A rosa, quando se embala,
    Não te ganha nem iguala
    A ti em indo a andar.

    A rosa tem linda côr,
    Não ha flôr de côr mais linda;
    Mas a tua côr ainda
    É mais fina e é melhor.
    Murcha a rosa (que desgosto!)
    Só de lhe a gente bulir;
    E essas rosas do teu rosto
    É em alguem te tocando
    Que parece mesmo quando
    Ellas acabam de abrir.

    Cheiro, o da rosa, esse não,
    Não é mais do meu agrado,
    Que o teu bafo perfumado,
    A tua respiração.
    Depois a rosa em abrindo
    Vai-se-lhe o cheiro tambem:
    A tua bocca em te rindo
    Só o bom cheiro que exhala...
    E quando fallas, a falla,
    Isso é que a rosa não tem.

    Ella o que tem, meu amor?
    O cheiro, a côr e mais nada.
    Confessa, rosa animada!
    Que és outra casta de flôr.
    Os olhos só elles valem
    Duas estrellas, bem vês;
    Pois vozes que a tua igualem
    Na doçura, na pureza,
    Na terra, não, com certeza;
    Agora no céo, talvez.

    Não ha assim perfeição,
    Não ha nada tão perfeito,
    Mas é um grande defeito
    O de não ter coração.
    N'isso é que te leva a palma
    A rosa, sendo uma flôr
    --Sem voz, sem vida, sem alma,
    Que abre logo á luz da aurora
    E á noite esconde-se e chora
    Pelo sol, o seu amor.

    Ora e se a rosa, vê bem,
    Tem amor, não tendo vida,
    Será coisa permittida
    Tu não amares ninguem?
    Suppões que Deus te agradece
    Essa isenção, minha flôr!
    Deus a ninguem reconhece
    Por filho senão quem ama:
    A terra e o céo proclama
    Que elle é todo puro amor.

Messines.

      *      *      *      *      *




A UMA MULHER


    Amo-te a ti, e a Deus.
    Teus sonhos são riquezas
    Talvez e fasto. Os meus,
    És tu, que me desprezas.

    Deixal-o. Amor acaso
    É racional? Não é.
    O fogo em que me abrazo
    É como a luz da fé;

    Que além de cega, apaga
    O facho da razão.
    Ama-se e não se indaga
    Se se é amado ou não.

    Amo-te. 

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