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Project Gutenberg

A estatua do poeta Ode nacional

Araújo, Joaquim de

2008ptGutenberg #24845Original source
Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
of public domain material from Google Book Search)





JOAQUIM DE ARAUJO

A ESTATUA DO POETA

ODE NACIONAL




PORTO

TYP. DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA

Cancella Velha, 70

1891




A ESTATUA DO POETA


TIRAGEM ESPECIAL

Deste opusculo extrahiram-se três exemplares em papel Japão, três em papel
China, e quatro em papel Whatman, numerados seguidamente de 1 a 10.


JOAQUIM DE ARAUJO

A ESTATUA DO POETA

ODE NACIONAL




PORTO

TYP. DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA

Cancella Velha, 70

1891



AO SENHOR

CONSELHEIRO JOSÉ DIAS FERREIRA

affectuosamente e respeitosamente

_o A._




I


Num vozear estridulo e vibrante,
    Irrompe a multidão:
Palpita como um hymno triumphante,
    Em cada coração.

Vem pagar uma divida sagrada,
    E, em francas ovações,
Junto á Estatua de bronze immaculada,
    Victoría Camões.

Três seculos havia, a morte escura
    Fulminara esse heroe,
Que até na doce paz da sepultura
    Tão desgraçado foi!

Três seculos havia. Inenarravel,
    Essa agonia atrós:
No catre do hospital, inexoravel,
    A Morte, o duro algoz.

E, cá fóra, ao bom Sol, o claro amigo,
    Cá fóra do hospital,
Os villões trabalhando no jazigo
    Do antigo Portugal...

Um circulo dantesco e pavoroso:
    O Genio num covil,
E no triumpho, erguido e magestoso,
    O asqueroso reptil.

A Traição galanada: o cru Cinismo
    Fingindo de Altivês:
Hiante, escancarado, o fundo abismo
    Do nome português.

Não ha na infamia quem se não adestre,
    Esmagando tropheus,
Tal como sobre a tunica do Mestre
    Jogavam os Judeus.

As Tradições ao vento, ao torvelinho,
    A Gloria,--ás bachanaes...
Adejam os milhafres junto ao ninho...
    Onde as aguias reaes?

Onde as aguias reaes? Foram seu rumo,
    Fugiram da ralé:
--Crestava-lhes a aza o escuro fumo
    Do escuro auto-de-fé.

O balsão do Impudor fluctua ao vento,
    Nos tragicos festins...
É morta a fina flôr do Sentimento,
    Miserrimos chatins!

Dormiam nos seus tumulos augustos,
    Ainda alta a cervís
De denodados campeões robustos,
    Os infantes de Avís--

E todos os titans, de Gloria trémulos
    Outrora, aos vivos soes,
Galgando mundos, continentes,--émulos
    Dos primevos heroes...

E a Nação dêsses inclytos herdeira
    Ia rojar no chão
A honra intemerata da bandeira,
    O invencivel pendão...

E o Poeta-cavalleiro esmorecia,
    Ao fim do seu lidar:
Com a Patria morria--se morria!--
    Quem tanto a soube amar.

Tres seculos havia... Mas vibrante
    Irrompe a Multidão:
Palpita como um hymno triumphante,
    Em cada coração.

E o Vidente, na Estatua alevantada
    Nem de leve acordou:
Na magestade erecta e bronzeada,
    Immovel se ficou!...




II


A Patria! a Patria! dá rebate e chama,
    Chama por todos nós.
Ha uma corrente electrica que inflamma
    Os netos e os avós!

Irrompe a multidão a afiar a espada
    Do combate leal,
No pedestal da Estatua immaculada
    No eterno pedestal,

E vae cobrir de lucto a grande Imagem
    Do heroico luctador,
Como um protesto contra a villanagem
    Do estrangeiro rancor!

Mas a Estatua que fora innacessivel
    Ás grandes ovações,
Num delirio de pompa indescriptivel,
    A estatua de Camões

Animou-se um momento e pela face
    O pranto lhe rolou,
Como astro de esperança, que raiasse...
    E á espada a mão levou!




Esta ODE foi expressamente composta e recitada pelo autor no sarau da
Sociedade Nacional Camoniana, realisado no theatro Gil-Vicente do Palacio
de Crystal, aos 10 de junho de 1891, sob a presidencia do ex.^mo sr. conde
de Samodães, secretarios os ex.^mos srs. Tito de Noronha e Almeida Outeiro.


PREÇO, 200 REIS